ARTE HOMOERÓTICA NO BRASIL

 

Wilton Garcia - USP

 

 

Este ensaio objetiva apresentar uma leitura acerca do livro Lábios que Beijei de Aguinaldo Silva. Ao considerar as construções visuais expostas pelo texto, busco indagar sobre os aspectos imagéticos que contribuem para uma perspectiva homoerótica, principalmente no Brasil.

O conceito de "Arte Homoerótica"[1] levanta discussões sobre os personagens dessa narrativa e seu contexto: a Lapa Carioca. Nesta forma, o jogo lingüístico proposto pelo autor, através das caricaturas de Débora "a bicha que voava...", evoca uma participação do leitor, contaminado de interesses pelos efeitos de sentidos.

 

Primeiros Passos

 

A introdução aos estudos culturais demonstra o escopo de romper com o cânone social, mediante as intersubjetividades do contemporâneo. Ao pesquisar as práticas dos modos de produções culturais e a relação de poder objetivo refletir sobre os periféricos da diversidade na cultura gay-lésbica brasileira. Nesta perspectiva a crítica requer questionar o sistema e estabelecer o emaranhado de (re)significações sobre a possibilidades de avanço do conhecimento: uma avaliação modular inserida na contextualização representacional de uma ação política contra a exclusão social. Uma articulação que visa ampliar as leituras para um espaço de resistência e denúncia.

Ao discutir sobre as transitoriedades culturais nos estudos gay-lésbicos contemporâneos no Brasil, procuro indagar celebrar a diferença sobre elementos que possam de alguma maneira considerar a questão do gênero (masculino, feminino e outros). Gênero, aqui atrelado á expectativa de uma identidade, pode compreender um universo bastante amplo seguindo as manifestações atuais, já que a sociedade pós-moderna traduz uma gama de sentidos, entre eles: por que você deseja o que você deseja? Assim, quando enfatizo situações que acercam a diversidade sexual, quero implementar essa verificação diante de determinados objetos potencialmente estilizados de informações ambíguas.

O princípio da natureza da ambigüidade expõe uma lógica poética sempre um sentido duplo, que esbarra e atropela a complexidade dos sentidos em razão de um entrelaçamento de idéias. Assim, posso reconhecer qualquer sistema como um duplo (coletivo) e não, especificamente, como uno (unidade). O critério para a ordem da significação da ambigüidade (des)oculta os objetos, refazendo a complementaridade das partes – a alegoria da combinação. A ambivalência e a ambigüidade como estado de compensações e sanções democráticas. O ambíguo pode tomar mais de um sentido, que explicitamente não precisa ser uma ação equivocada, nem mesmo indeterminado, impreciso ou incerto. Uma atividade ambígua pode provocar distúrbios na informação ou posições diferenciadas. Necessariamente a ambigüidade não cria um sentido oposto, mas sim contínuo, em que o resultado pode acabar deixando escapar alguns fragmentos de instâncias para uma outra ordem normativa. A ambigüidade pode ser considerada, em determinados momentos, uma estratégia de resistência da diferença minoritária ou até mesmo uma linguagem, quando a operação lingüística constitui uma visão organizada e fundamentada, para elaborar um propósito na manifestação da dúvida. A idéia é estrategicamente escapar pelos desvios. O Estado da representação do intermediário absorve a reinteração dos objetos.

No livro de Aguinaldo Silva, creio que o leitor possa se deparar com argumentos que fascinam e encantam na sua beleza descritiva. A configuração de significações abrangentes em cena promove destaques contundentes para ativar o imaginário do público. Uma obra aberta, pronta para ser visitada, sendo que em cada momento visitada pode ser interpretada de diferentes maneiras. A gosto do freguês. E desde que o leitor/observador esteja disposto a jogar com essa história de Débora, já que as peças do jogo foram armadas. Uma rede de emaranhados espetam a atenção em páginas, parágrafos, ou palavras. São pistas encontradas no caminho divertido da leitura, em que as proezas do narrador se confundem com as da personagem Débora e se desfiguram no jogo emblemático proposto pelo autor.

A imagem da travesti parece ser pontual para discutir determinadas relações que indagam uma certa radicalização de gênero. Se para muitos essa figuratização está á margem, aqui ela é o centro. Um deslocamento, no campo ornamentado de Débora, permite seu posicionamento simbólico e também uma discussão sobre o poder, quando assume a protagonização da narrativa. A possibilidade de dar lugar ao sujeito "sem lugar" na sociedade indica a concepção invertida de uma narrativa profana, no reino do "faz de conta".

Diante da maravilha mitológica de Rainha das seringas – Débora –, quando com suas artimanhas acrobáticas desaparece, ressurge num salto mortal do terceiro andar de seu quarto.

 

A Lapa Carioca

 

Se ter uma posição requer uma disputa, então, posso dizer que, a cada momento a personagem está diante de um questionamento que faz o leitor decidir sobre um assunto. A opinião do leitor/participante estimula a possibilidade de estar num lugar. Parece que para a psicanálise tomar partido, determinar este lugar se compõe de uma agressividade.

Para indagar acerca da problematização de poder pode-se observar a competência para ocupação de um lugar – o enquadramento, o ângulo, o foco, o recorte – enfim, a referência como um ponto de vista, um princípio. A contextualização social de uma esfera pública ou privada determina o assentamento dicotômico dentro e fora do espaço, intitulando um olhar externo e simultaneamente o interno (o olhar estranho na sua transversalidade – estrangeira). Mais que achar o código do lugar seria compreendê-lo. Assim, a exclusão ocorre no ato de tomar o lugar do outro.

A composição do contexto cenográfico – a descrição da Lapa carioca – organiza e assina o encontro do leitor diante de argumentos narrativos. Fatos se desencadeiam um cenário aplaudido pelo imaginário do autor e resgatado num precioso saudosismo de quem conviveu com uma parte do Rio de Janeiro e sua boemia: a marginalidade e a polícia. São experiências que na sua contextualização procuram impressionar e encantar o leitor – sedução da linguagem.

Também este local escolhido auxilia no enriquecimento do contexto homoerótico, na qual o enredo narrativo acontece. Afinal, quem não ouviu dizer sobre as histórias (gays) emblemáticas circundadas naquela região. Zona de Império, local de grande atenção carioca pelo seu prestígio pioneiro de representar o bairro como parte de uma periferia perdida entre prédios modernos com o volume da metrópole. A Lapa da "cidade maravilhosa" fez e faz história com sua riqueza cultural e as anedotas de sujeitos, moradores de um reduto, antropofagicamente, engolido no meio do desenvolvimento urbano.

No drama de Aguinaldo Silva, o lugar de onde Débora fala é de sua casa, ás vezes do seu quarto, ás vezes da sua cama. Ela sabe tudo o que acontece e circula no bairro, pois tem bons informantes determinados em rastear as novidades. Parece que, mesmo no aconchego do seu lar (um puteiro/suadouro), a personagem muitas vezes desocupa o lugar em razão de uma pressão policial. E com isso, instiga uma vivência imaginária experimentada pelos saltos acrobáticos que se desdobram num deslocamento sincrético. Dar lugar ao vôo.

 

Romance Pós-Moderno

 

A sutileza do romance está no rito de passagem simulada entre fato real e ficcional que dinamiza as decisões de uma temática, especificamente neste livro. Um conflito permanece no entremeio e combina uma porção de cada parte, para obter uma melhor performance. Essa literatura pós-moderna acerta na sua competência quando, poeticamente, traz para o centro da narrativa um evento marginal – ex-cêntrico – encarando a realidade e sua diversidade cultural. Embora, os efetivos obstáculos na construção de um amor homoerótico entre o narrador (autor), que se apaixona pelo bofe (o alemão da Lapa), funciona como síntese do enredo, e demonstra a fada madrinha – performatizada na imagem de Débora – a bicha que voava.

 

Trepada sobre o para-peito, a repetir desordenadamente o tique nervoso que as picadas faziam surgir no canto direito da boca, anunciou aos policiais incrédulos: Eu pulo. E um deles – o que atirou depois – respondeu com desprezo: Pula, veado, que assim você poupa o trabalho da gente lavrar o flagrante – vai se esborrachar todinha no chão.

 

A voz da polícia coloca Débora na posição de vítima, principalmente quando ameaça se lançar três andares do sobrado. Num salto acrobático a esperteza física da personagem deve se apropriar da configuração visual de uma garotinha lépida que, com seu movimento dinâmico, pode ousar numa pose do excesso e da alegoria. Com isso, se insere numa circunferência pulsante de matrizes do feminino, do riso e da caricatura, esbarrando no princípio da diferença. A diferença é ter na sua natureza aspectos do diferente. O gozo na metáfora de uma representação simulada. E será neste simulacro que encontraremos a idéia de transformação entre palco e platéia. A atitude do pulo pela janela pode esmerir diferentes significados, mas pode também obter conseqüências desastrosas. No contexto o leitor pode (re)significar o corpo erótico de Débora, na prudência do esforço acrobático pelo não-erótico.

Na medida em que a narrativa se desenvolve vamos nos apaixonando com a descrição da imagem do pulo de Débora, que se repete várias vezes no enredo. O jogo de repetir os lances de jogadas procura retratar de outros ângulos, outras possibilidades de leitura. Assim, a força dessa cena específica, traduz o processo criativo elaborado pelo autor. Afinal, Aguinaldo fala com a propriedade de quem testemunhou evidentemente o salto da bicha. Como na dedicatória do livro de Aguinaldo:

 

Para Débora:

onde quer que ela esteja, quem quer que seja agora,

e se é que algum dia existiu.

 

Um recurso estilístico perante o seu contexto se explode. Isto é, Débora possibilita um repleto repertório livre para as suas manifestações de gêneros, sem se preocupar com os estereótipos masculinos e femininos.

Assim, o livro estabelece um diálogo com a cultura cotidiana de um Brasil gay muito escondido. Pouco citado. A imagem da bicha brasileira tem a dificuldade de obter o seu lugar como pessoa, em razão de um estigma social marcado pelo preconceito e pela discriminação. Além disso, muitas vezes infelizmente são negligenciados pela recusa da família, parentes, amigos, vizinhos e da sociedade em geral. Alguns até falam sobre elas, mas quase nunca querem falar com elas. De fato, são essas bichas "loucas" que enfrentam o maior preconceito, já que há outras, as bichas "comportadinhas", que são dissimuladas, porque tentam seguir o comando da ordem. Impressionar o outro e garantir um espaço na sociedade falocêntrica.

Se por um lado o talento do escritor se apresenta nesta literatura gay uma operação poética avançada, por outro lado os conservadores da literatura canônica tentam apagar os sentidos dessa escritura, assim como os editores que não colaboram para melhorar o mercado cor-de-rosa, bem como a mídia que quase não divulga a literatura gay brasileira. Depois de morto, quem sabe talvez, o público possa ouvir dizer sobre a obra homoerótica na obra de Aguinaldo, como falam dos falecidos Cazuza, Renato Russo ou Caio Fernando de Abreu.

 

 

Performance do corpo

 

Ao estranhar a performance dos atores/personagens nas cenas, suspeito como observar um ruído na comunicação, tal qual aprendemos com a teoria da informação. Essa inquietação provoca a ruptura diegésica, pois o evento joga com o observador (o público). A performance se apresenta como uma estonteante tarefa de brincar com as representações.

Uma leitura política de seres maltratados pela vida social – arrojados como sub-proletariados – tenta esclarecer os horrores das dificuldades econômicas. Para investigar algumas condições dos modos representacionais das minorias sexuais no Brasil devo considerar o universo cultural do meio "entendido".

O entrelaçamento da ficção e da realidade se compõe neste estudo de literatura comparada ao redesenhar a personagem – Débora: a bicha que voava – do texto de Aguinaldo Silva e o trabalho artístico da drag queen Vitória Principal. Uma representante abrangente das minorias, que caracteriza uma tipografia grotesca e peculiar do nacional: negra, feia, pobre, debochada e irônica. As premissas conceituais expõem o impacto visual da performance de Vitória Principal, que foi adaptada no vídeoAntonio Marcos (1999, SP, 10 min.). Um depoimento livre da drag que luta para escapar das possibilidades de exclusão, enquanto vítima de um sistema social discriminatório. Da margem ela se joga para o centro, com a facilidade de uma transitoriedade especulativa.

Na perspectiva da imagem estereotipada da bicha brasileira, a performance caricatural da Vitória esbarra nos adjetivos críticos. São brincadeiras tidas com "verdades". São disfarces, como a estratégia do palhaço (segundo a teoria do clown), que se utiliza da máscara expressando seu ponto de vista. Será que Vitória está sorrindo para o espectador ou do espectador? A condição "sou artista" provoca uma licença poética que deixa o trânsito livre para suas observações escatológicas, com sagacidade e ironia. A maquiagem exagerada esconde e revela, simultaneamente, diversos aspectos retóricos. Uma alegoria tratada pelo excesso e pelo jogo das contradições.

Para compreendermos a performance da Vitória enquanto objeto de pesquisa, podemos questionar a sua manifestação corporal. É estabelecer o campo de intencionalidades da sua representação performática de um entre-campo espacial e temporal, como vínculo de ligação do autor – obra – observador. O caráter de uma ambigüidade contemporânea que explora o espaço das possibilidades textuais. O Mundo do possível. Parece que há muitas dúvidas que questiona a imagem de Débora, bem como a de Vitória Principal. Perguntando sobre o gênero seria indagar: masculino ou feminino? Um terceiro sexo? quando seria bicha, drag queen ou travesti? Autor, narrador ou mega-narrador? Ator, atriz ou personagem? Palco ou platéia? Apresentação ou representação? Analogia ou simulacro ou mímese?

 

(...) o discurso da mímica é construído em torno de uma ambivalência, para ser eficaz, a mímica deve produzir continuamente seu deslizamento, seu excesso, sua diferença (BHABHA, 1999: 130).

 

A caricatura como veículo comunicacional, que transporta esse tipo de informação, auxilia a relação ator/personagem formando a composição realidade e ficção. O mesmo pode ser observado na narrativa de Débora. Na medida que este corpo instiga a platéia/o leitor, estabelece um ato comunicativo, no qual o artista está presente na concepção da mensagem.

A violência grotesca (como uma radicalização de efeitos) se espeta em passos, na formação de compromisso, quase que privada da drag queen. A revelação da informação negocia as afirmações do desejo. A referência da comunicação se (des)constrói na interposição das informações. Uma situação pontuada pelo limite das jogadas no palco. Estas tensões socioculturais preestabelecem um anti-inferno.

Em especial na performance da Vitória Principal, verticalmente, observamos a devagação de aspectos contraditórios que se entrecruzam na medida de suas necessidades (condições normativas) básicas-vitais. Parece uma esfera do desejo erótico interpretando a divisibilidade dos objetos em cenas, a partir de uma relação direta com a linguagem do olhar ideológico de uma sociedade eminentemente capitalista (fronteira entre sagrado e profano). O observador/leitor torna-se também elemento da cena ficcional. São relações dispostas na incorporação da dependência da ação alheia, que sobrevive do prazer em conseqüência do representar do outro. A mediação, como jogo poético, implanta o intervalo como o campo de intencionalidades, no qual o jogador está permanentemente jogando – como quem nunca se ausenta da cena.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

COSTA, Jurandir Freire. A Inocência e o Vício. Estudos sobre o Homoerotismo. Rio de

Janeiro: Relume/Dumará,1992.

_____. A Face e o Verso. Estudos Sobre o Homoerotismo II. São Paulo: Editora             Escuta, 1995.

GARCIA, Wilton. Introdução no cinema intertextual de Peter Greenaway. São Paulo:

Editora AnnaBlume/UniABC, 2000(a).

_____. A Forma Estranha: Ensaios Sobre Cultura e Homoerotismo. São Paulo:

Edições Pulsar, 2000(b).

LOPES, Denilson. Manifesto Camp. In: GRAGOATÁ – Revista do Instituo de Letras.

Niterói-RJ: EDUFF, 1997.

PASSARELLI, Carlos A. F. Há uma Santa com seu Nome In: Revista Brasileira de

Sexualidade Humana. São Paulo: Ed. IGLU/Sbrash, Vol.7 Edição Especial 1,

1996.

SILVA, Aguinaldo. Lábios que Beijei. São Paulo: Editora Siciliano, 1992.



[1]Na pesquisa, proponho um estudo acerca do "Homoerotismo e Imagem – A Instauração da Arte no Discurso da Sexualidade Humana". A emergência de estudos acerca das discussões das minorias sexuais brasileira, principalmente no campo da comunicação visual, instiga uma abordagem da expressão artística, utilizando recursos audiovisuais (cinema, vídeo, e computador) e visuais (entre plásticas e fotográficas). Assim, a pesquisa propõe efetuar uma análise temática de uma arte homoerótica - a Homoarte - como referência instrumental para organização conceitual da Poética das Alteridades.